Outro dia me fiz uma pergunta que me levou dez anos à frente. Tentei imaginar quem eu gostaria de encontrar em 2036. Não pensei primeiro no patrimônio que gostaria de ter acumulado, no carro que estaria dirigindo, no lugar onde estaria morando ou no cargo que ocuparia. Naturalmente, tenho objetivos profissionais e financeiros muito grandes. Mas, quando pensei no homem que gostaria de encontrar daqui a dez anos, percebi que a resposta passava por coisas muito mais profundas.

Gostaria de encontrar um homem com raízes mais fortalecidas. Um casamento mais maduro e zeloso. Filhos que conheçam os valores e a direção da nossa família. Um corpo saudável e uma mente leve. Mais fontes de renda e, com elas, maior liberdade financeira, de tempo e geográfica. Uma relação mais íntima com Deus, capaz de fortalecer também as outras áreas da minha vida. Gostaria de encontrar alguém centrado, determinado e, principalmente, profundamente grato.

Se os meus dias continuarem me formando na direção em que estão formando hoje, é esse homem que estarei me tornando?

Pensar no futuro é relativamente fácil. Podemos imaginar onde queremos morar, quanto queremos ganhar, as experiências que gostaríamos de viver, a família que desejamos construir e a pessoa que esperamos nos tornar. O problema é que existe uma distância entre imaginar uma vida e construí-la. E essa distância é preenchida, em grande parte, por dias absolutamente comuns.

Uma terça-feira em que ninguém está olhando. Uma manhã em que o despertador toca e ainda estamos cansados. Uma noite em que precisamos escolher entre aquilo que havíamos decidido fazer e aquilo que parece mais confortável naquele momento. Uma conversa que poderíamos ter com alguém dentro de casa. Um dinheiro que podemos gastar ou guardar. Uma caminhada que podemos fazer ou adiar. Alguns minutos que podemos dedicar à oração, ao estudo ou simplesmente entregar novamente à distração.

Nenhuma dessas escolhas parece grande o suficiente para definir uma vida. Talvez porque, isoladamente, quase nunca defina. Mas tenho começado a perceber que nossa vida não é construída apenas pelas grandes decisões que tomamos. Ela também é formada pelas pequenas decisões que repetimos quando nenhum grande resultado ainda pode ser visto.

Consigo enxergar isso olhando para minha própria história. Depois que me casei, em 2016, começamos a organizar melhor nosso orçamento doméstico. Não aconteceu nenhuma transformação extraordinária de um dia para o outro. Começamos simplesmente a entender melhor o dinheiro que entrava, aquilo que gastávamos e o que poderíamos fazer com ele. A organização abriu espaço para começar a investir. O investimento despertou ainda mais meu interesse pelo mundo financeiro e, anos depois, em 2020, comecei minha transição da área contábil para o mercado financeiro.

É impossível dizer que uma única decisão produziu todas as outras. A vida é mais complexa do que isso. Mas, olhando para trás, consigo perceber uma direção sendo construída.

Na saúde aconteceu algo parecido. Também por volta de 2016, comecei a mudar minha alimentação e percebi resultados importantes. Alguns anos depois, em 2023, comecei algo ainda mais simples: caminhar. Uma caminhada encontrou outra, a caminhada começou a se transformar em corrida e, em 2024, iniciei um treinamento acompanhado por uma especialista. Em dezembro daquele ano, estava em São Paulo para correr a São Silvestre.

Existe uma distância enorme entre começar uma caminhada e participar de uma São Silvestre. Mas talvez seja justamente esse o ponto.

Algumas das maiores mudanças da nossa vida começam pequenas demais para parecerem capazes de mudar alguma coisa.

Na fé também reconheço um processo semelhante. Depois do casamento, comecei a buscar mais, estudar mais e desejar conhecer Deus com maior profundidade. Nada disso aconteceu instantaneamente. Foram movimentos. Pequenas decisões encontrando outras pequenas decisões até começarem a mudar uma direção.

Talvez por isso eu goste tanto da imagem de uma árvore. Podemos observá-la durante um dia inteiro e não perceber crescimento algum. Podemos voltar no dia seguinte e aparentemente encontrar a mesma árvore. Mas existe um processo acontecendo. Raízes avançam, células se multiplicam, galhos são formados. Aquilo que parece imóvel está vivo.

Ninguém vê uma árvore crescendo de um dia para o outro. Mas ela não passa um único dia sem estar sendo formada.

Talvez aconteça algo semelhante conosco. O problema é que o contrário também pode ser verdadeiro. Assim como pequenas decisões podem construir uma direção, pequenas concessões repetidas também podem nos afastar dela.

Conheço bem esse lado da história. Antes de me casar, muitas vezes foram festas, eventos e compromissos sociais. Depois vieram outras distrações: maratonas de séries, redes sociais, o desejo de dormir um pouco mais. E existe uma frase especialmente convincente nesses momentos: “Eu mereço.” Trabalhei muito. Estou cansado. Hoje foi difícil. Eu mereço descansar.

E talvez realmente mereça. Descanso é necessário. Diversão também. Existem dias em que aquilo de que mais precisamos é parar. O problema não está em descansar, mas em transformar uma necessidade legítima em justificativa permanente para aquilo que sabemos que estamos adiando.

O conforto raramente chega dizendo que devemos abandonar a vida que desejamos construir. Às vezes ele diz apenas: “Hoje não.” Amanhã eu treino. Depois eu estudo. Na segunda-feira eu volto. Mês que vem organizo minhas finanças. Quando as coisas acalmarem, terei mais tempo para minha família. Quando estiver em uma fase melhor, volto a buscar mais a Deus.

Um “hoje não” dificilmente muda uma vida. Mas centenas deles podem mudar uma direção.

Talvez seja justamente isso que torne nossas pequenas escolhas tão fáceis de subestimar: o efeito quase nunca aparece imediatamente. Se eu não estudar inglês hoje, amanhã minha vida continuará praticamente igual. Se eu não treinar hoje, provavelmente acordarei amanhã com o mesmo corpo. Se eu gastar um pouco além do planejado, talvez nada aconteça. Se eu estiver fisicamente em casa, mas passar a noite distraído, aparentemente minha família continuará ali. Se eu deixar minha vida espiritual para depois, talvez também não perceba mudança alguma amanhã.

É essa ausência de consequência imediata que torna o adiamento tão sedutor. Só que os dias se acumulam. E, em algum momento, a direção aparece.

Talvez por isso algumas coisas que desejo há anos ainda me confrontem. Já comecei cursos que não terminei. Já iniciei estudos com muita motivação e abandonei no caminho. O inglês talvez seja um dos exemplos mais claros. Comecei mais de uma vez e ainda não alcancei a fluência que desejo. Quando isso acontece, nem sempre minha reação é simplesmente recomeçar. Às vezes aparece um sentimento de impotência, de fracasso, a sensação de que talvez eu não consiga manter aquilo que comecei. Em alguns casos voltei. Em outros, desisti.

E talvez exista aqui uma armadilha ainda maior do que falhar: transformar uma falha em identidade.

Perder um dia não significa que somos indisciplinados. Interromper uma rotina não significa que somos incapazes de retomá-la. Sair da rota não significa que precisamos continuar caminhando na direção errada.

Talvez consistência não seja nunca sair da rota. Talvez seja perceber quando saímos e voltar antes que o desvio se transforme em destino.

Isso muda bastante minha maneira de enxergar disciplina, porque uma vida real não acontece em condições perfeitas. Filhos precisam de nós. O trabalho atravessa períodos mais intensos. Dormimos mal. Adoecemos. Viajamos. Imprevistos acontecem. Há estações em que determinada área da vida exigirá muito mais atenção do que as outras.

Por isso, construir uma Vida Robusta não pode significar distribuir perfeitamente nossas horas entre Patrimônio, Mentalidade, Família, Saúde e Fé. A vida não funciona assim. Existem estações. Hoje, por exemplo, consigo perceber que Família e Trabalho receberam grande parte da minha atenção nos últimos tempos. E também consigo perceber que outras raízes estão pedindo cuidado.

O problema não é uma área receber mais atenção em determinada estação. O problema é não perceber quando aquilo que é urgente começa a engolir continuamente aquilo que também é importante. Talvez organizar nossos dias não signifique dar a mesma quantidade de tempo para tudo, mas impedir que aquilo que importa seja abandonado silenciosamente por tempo suficiente para começar a enfraquecer.

Isso me faz olhar de outra maneira até para um cronograma. Durante uma época em que estudava para concursos, cheguei a organizar meus horários de maneira bastante detalhada. Havia tempo para estudo, sono e até para atividades comuns do dia. Não acredito que uma vida inteira precise funcionar como uma planilha, mas existe algo naquela experiência que hoje consigo compreender melhor: quando não decidimos conscientemente o que faremos com parte do nosso tempo, outras coisas rapidamente decidem por nós.

Uma notificação decide. Um episódio decide. Uma demanda decide. O cansaço decide. O urgente decide. E, pouco a pouco, podemos passar anos dizendo que determinadas coisas são importantes enquanto nossos dias contam uma história completamente diferente.

Não decidir também é uma decisão.

Não cuidar também produz consequências. Não escolher também cria uma direção. Não mudar a rota também nos leva a algum lugar.

E foi justamente isso que mais me confrontou quando pensei nos próximos dez anos. Se eu continuar exatamente com determinados comportamentos que tenho hoje, eles me levarão para a vida que desejo encontrar em 2036? Em algumas áreas, acredito que sim. Em outras, a resposta é claramente não.

Admitir isso não precisa produzir culpa. Pode produzir responsabilidade.

Eu não consigo controlar tudo aquilo que acontecerá nos próximos dez anos. Não sei quais oportunidades surgirão, quais dificuldades enfrentarei ou quais planos precisarão mudar. Não sei sequer se alguns dos sonhos que hoje considero importantes continuarão fazendo sentido para mim daqui a alguns anos. Mas posso olhar para a direção dos meus dias. E posso corrigir a rota.

Talvez uma das coisas mais perigosas sobre imaginar o futuro seja acreditar que teremos tempo para nos tornar, mais tarde, aquilo que não estamos começando a construir agora. O homem que espero encontrar em 2036 não aparecerá de repente naquela manhã. Seu casamento estará sendo construído nas conversas de hoje. Sua relação com os filhos estará sendo construída nos momentos de presença de hoje. Sua saúde estará sendo influenciada pelas decisões repetidas de hoje. Sua relação com dinheiro estará sendo moldada pela maneira como administra aquilo que possui hoje. Sua mente estará sendo alimentada por aquilo a que entrega atenção hoje. Sua intimidade com Deus estará sendo cultivada na busca de hoje. Seu trabalho estará sendo influenciado pelo que aprende, desenvolve e entrega hoje.

Talvez eu avance mais em algumas dessas áreas do que em outras. Talvez existam períodos em que precise reduzir a velocidade. Talvez precise corrigir a rota muitas vezes.

Direção importa mais do que velocidade.

Quando imagino aquele homem daqui a dez anos, gostaria que ele pudesse olhar para trás e agradecer. Não porque o Igor de 2026 acertou tudo, mas porque decidiu sair de alguns lugares confortáveis. Porque aprendeu a ser grato mesmo antes de possuir tudo aquilo que desejava. Porque continuou acreditando quando as circunstâncias não pareciam favoráveis. Porque tentou aprender com as dificuldades. Porque, depois de algumas quedas, decidiu voltar. Porque não desistiu.

Talvez perseverança não seja passar dez anos sem sair da rota. Talvez seja passar dez anos aprendendo a voltar para ela.

E há algo especialmente bonito nisso: o futuro que desejo ainda não existe, mas muitas das coisas necessárias para começar a construí-lo já estão disponíveis. Não preciso esperar 2036 para fortalecer meu casamento. Não preciso esperar liberdade financeira para aprender a administrar melhor aquilo que tenho. Não preciso esperar estar em excelente forma para movimentar meu corpo. Não preciso esperar saber tudo para começar a estudar. Não preciso esperar uma circunstância extraordinária para estar presente com meus filhos. Não preciso esperar me tornar espiritualmente maduro para buscar a Deus.

Posso começar com aquilo que tenho, onde estou, hoje.

Talvez daqui a dez anos eu olhe para trás e descubra que algumas das decisões mais importantes da minha vida não pareceram importantes quando foram tomadas. Eram apenas pequenas mudanças de direção: uma caminhada, um aporte, uma página, uma conversa, uma oração, uma decisão de desligar, uma decisão de começar ou simplesmente a decisão de voltar.

Não sei exatamente onde todas elas me levarão. Mas sei que permanecer exatamente onde estou também é uma direção. Por isso, não quero apenas sonhar com o homem que espero encontrar em 2036. Quero começar a construí-lo, um dia de cada vez.

Porque o futuro ainda não chegou. Mas a direção dele está sendo construída hoje.