Quando comecei a trabalhar como officeboy em um escritório de contabilidade em Anápolis, fazia boa parte do meu serviço de bicicleta.
Lembro-me de observar outro officeboy, mais velho do que eu, que também trabalhava de bicicleta. Eu não conhecia sua história, seus planos ou aquilo que desejava para a própria vida. Talvez estivesse satisfeito. Talvez aquele trabalho fosse exatamente o que precisava naquela estação. Não cabia a mim julgar.
Mas aquela imagem provocou alguma coisa em mim.
Eu pensei que não queria permanecer naquela condição para sempre.
Não havia nada de errado em ser officeboy. Aquele era o meu trabalho e, naquele momento, também era parte da minha história. Mas alguma coisa dentro de mim dizia que eu poderia estudar, crescer, me desenvolver e construir outras possibilidades.
E foi o que comecei a fazer.
Curiosamente, muitos anos depois, olhar para a vida de outras pessoas começou a produzir em mim um efeito quase oposto.
Em alguns momentos, olhava para colegas da faculdade, pessoas da minha idade ou até mais novas que haviam alcançado determinados resultados profissionais e financeiros, e me perguntava por que eu ainda não estava lá.
Talvez eu tivesse escolhido a profissão errada. Talvez não tivesse me esforçado o suficiente. Talvez estivesse atrasado.
A referência, que poderia servir de inspiração, começava a se transformar em uma régua para medir minha própria vida.
E o resultado quase nunca era crescimento.
Era inferioridade.
Eu me sentia impotente, incompetente e, muitas vezes, esgotado. Quanto mais olhava para aquilo que alguém havia construído, menos conseguia perceber aquilo que eu próprio carregava.
Hoje acho interessante observar essas duas experiências porque, aparentemente, elas começam da mesma maneira: olhando para a vida de outra pessoa.
Mas terminam em lugares completamente diferentes.
Na primeira, aquilo me provocou a assumir responsabilidade pela minha história. Na segunda, a comparação me fazia rejeitá-la.
Talvez esteja aí uma diferença importante entre inspiração e comparação.
A inspiração nos devolve para a nossa própria vida. A comparação nos faz querer fugir dela.
Quando alguém nos inspira, podemos olhar para seu resultado e perguntar: o que posso aprender aqui? O que preciso desenvolver? Que decisão preciso tomar? O que está ao meu alcance agora?
A comparação faz outra coisa. Ela transforma o resultado do outro em evidência da nossa insuficiência.
Ele conseguiu, eu não.
Ele está à frente, eu estou atrasado.
Ele tem, eu não tenho.
E, quando repetimos essas comparações por tempo suficiente, podemos começar não apenas a desejar aquilo que o outro possui, mas a diminuir aquilo que nós somos.
As redes sociais talvez tenham ampliado esse fenômeno como nunca antes.
Carregamos no bolso uma janela para milhares de vidas. Vemos patrimônios, viagens, carreiras, casas, corpos, famílias, negócios e conquistas. Isso também tem um lado extraordinário. Nunca tivemos tanto acesso a conhecimento, referências e histórias capazes de ampliar nossa percepção sobre aquilo que é possível.
O problema não está necessariamente em olhar.
O problema começa quando transformamos aquilo que vemos em uma régua.
Passamos a comparar nossa vida inteira com pequenos recortes da vida de outras pessoas. E, pouco a pouco, aquilo que poderia nos inspirar começa a produzir insatisfação com aquilo que temos e até com quem somos.
Por isso, tenho me feito uma pergunta:
Quanto daquilo que desejamos realmente faz parte da vida que queremos construir e quanto passamos a querer simplesmente porque vemos outras pessoas vivendo?
Não acredito que exista algo errado em desejar mais.
Eu tenho sonhos grandes. Quero crescer profissionalmente, construir patrimônio, alcançar liberdade financeira, proporcionar boas experiências à minha família e realizar coisas que ainda estão distantes da realidade que vivo hoje.
Há desejos materiais também. Gosto de carros e consigo imaginar a experiência de um dia ter um Porsche.
O problema não está necessariamente no Porsche.
O problema seria precisar dele para acreditar que finalmente tenho valor.
Existe uma diferença enorme entre desejar algo porque aquilo faz parte da vida que queremos construir e precisar daquilo para provar alguma coisa para nós mesmos ou para os outros.
Talvez uma das maiores perdas provocadas pela comparação não seja querer aquilo que outra pessoa possui.
Talvez seja rejeitar aquilo que temos porque ainda não alcançamos aquilo que ela tem.
E isso vai muito além do dinheiro.
Podemos olhar para a carreira de alguém e desprezar nossa experiência. Olhar para a família de alguém e esquecer quem está sentado à nossa mesa. Olhar para o corpo de alguém e reduzir saúde à aparência. Podemos até olhar para a caminhada espiritual de outra pessoa e transformar a fé em comparação.
Quando fazemos isso, corremos o risco de passar a vida admirando o terreno dos outros enquanto deixamos o nosso sem cultivo.
Nos últimos meses tenho vivido uma experiência diferente na minha própria vida profissional.
Ao desenvolver meu trabalho, comecei a perceber com mais clareza o valor da experiência que acumulei ao longo dos anos, aquilo que sei fazer e, principalmente, minha capacidade de ajudar pessoas.
Essa mudança de percepção mudou também minha postura.
Durante muito tempo, o sentimento de inferioridade fazia com que determinadas oportunidades parecessem maiores do que eu. Quando comecei a reconhecer que também tinha algo para oferecer, passei a me posicionar de maneira diferente diante delas.
Não porque tenha me tornado melhor do que alguém.
Nem porque todos os meus objetivos tenham sido alcançados.
Mas porque comecei a substituir uma pergunta.
Em vez de entrar em determinados ambientes pensando se eu era bom o suficiente para estar ali, comecei a perguntar:
Como aquilo que eu carrego pode ser útil aqui?
Reconhecer nosso valor não deveria nos tornar superiores. Deveria nos tornar responsáveis.
Porque, quando percebemos que carregamos alguma coisa que pode ser desenvolvida e colocada a serviço, surge uma nova pergunta: o que estamos fazendo com isso?
Tenho pensado que cada pessoa carrega uma combinação que não se repete exatamente da mesma maneira. Nossa história, experiências, erros, habilidades, relacionamentos, oportunidades, aprendizados, responsabilidades e a maneira particular como enxergamos o mundo formam algo que nenhuma outra pessoa possui exatamente da mesma forma.
Gosto de pensar nisso como uma espécie de potencial nuclear.
Não no sentido de que todos nasceram destinados à fama, riqueza ou alguma realização extraordinária. Também não acredito que basta pensar positivamente para que tudo aconteça.
Potencial não é garantia.
É possibilidade.
Uma semente pode carregar dentro de si uma árvore inteira e ainda assim precisar de solo, água, luz, tempo e cultivo para se desenvolver.
Talvez aconteça algo semelhante conosco.
Talento sem desenvolvimento não nos leva necessariamente a algum lugar. Potencial não substitui disciplina. Sonho não substitui movimento.
Olhar para alguém que chegou onde gostaríamos de chegar pode nos mostrar que determinado caminho é possível. Mas existe uma parte dessa história que nem sempre aparece.
O processo.
Quantos anos aquela pessoa dedicou? O que precisou aprender? A que precisou renunciar? Quantas vezes errou? Quantas vezes continuou trabalhando quando ainda não havia resultado algum para mostrar?
A realização de outra pessoa pode ampliar nossa percepção do possível, mas não transfere para nós o preço do processo.
Algumas conquistas exigirão anos de dedicação. Outras virão depois de erros, frustrações, esforço e persistência. E existirão também oportunidades que talvez apareçam em circunstâncias que jamais poderíamos planejar.
Estar no lugar certo e no momento certo pode mudar uma história.
Mas existe uma diferença entre encontrar uma oportunidade e estar preparado para aproveitá-la.
Se permanecemos parados, podemos até estar diante de algo extraordinário e não possuir preparo para reconhecer, aproveitar ou sustentar aquilo.
Talvez seja por isso que potencial me pareça uma palavra tão bonita e, ao mesmo tempo, tão séria.
Porque potencial fala daquilo que pode ser.
Responsabilidade pergunta:
O que você está fazendo para que seja?
Essa pergunta começou a mudar a maneira como penso sobre valor.
Talvez reconhecer nosso valor seja apenas o começo.
Porque, se recebi capacidades, relacionamentos, oportunidades e alguma possibilidade de influência, existe uma pergunta ainda mais importante:
O que estou fazendo com aquilo que me foi confiado?
Não basta descobrir que tenho algo precioso nas mãos. Preciso cultivá-lo.
Se posso desenvolver uma habilidade, preciso me mover. Se posso melhorar minha relação com minha família, preciso estar presente. Se posso cuidar melhor da minha saúde, preciso agir. Se posso organizar minha vida financeira, preciso assumir responsabilidade. Se posso crescer na fé, preciso buscar.
E, se aquilo que aprendi ao longo da minha história pode ajudar outra pessoa, talvez exista também responsabilidade em não guardar tudo apenas para mim.
Não basta reconhecer o próprio valor. Precisamos fazer alguma coisa valiosa com ele.
Quando penso no que foi colocado nas minhas mãos, hoje não penso apenas em profissão ou dinheiro.
Penso primeiro em relacionamentos.
Na dimensão horizontal, penso na minha esposa, nos meus filhos, na minha família e nas pessoas que cruzam meu caminho. Cada encontro carrega possibilidades que muitas vezes subestimamos. Às vezes alguém não precisa de uma grande solução. Precisa ser ouvido com atenção. Precisa de uma palavra de encorajamento. Precisa perceber que existe alguém verdadeiramente presente do outro lado.
Vivemos em um tempo extremamente conectado e, paradoxalmente, podemos nos tornar cada vez mais distraídos uns dos outros.
Na dimensão vertical, penso na minha relação com Deus.
Quanto mais reflito sobre isso, mais percebo que essas duas direções ajudam a organizar todo o restante. Fé e família não anulam patrimônio, mentalidade ou saúde. Pelo contrário. Elas me ajudam a perguntar para quem, com quem e por que estou construindo as outras coisas.
E isso me leva à gratidão.
Tenho aprendido que é possível desejar profundamente uma vida maior e, ao mesmo tempo, ser profundamente grato pela vida que existe hoje.
Durante muito tempo talvez eu tenha tratado essas duas coisas como opostas.
Se estou satisfeito, por que buscaria mais?
Se quero mais, como posso estar satisfeito?
Hoje não vejo mais dessa forma.
Gratidão não precisa diminuir a ambição. Ela pode impedir que a ambição transforme o presente em miséria.
Posso desejar liberdade financeira e agradecer pelo trabalho que tenho hoje. Posso desejar proporcionar ainda mais à minha família e reconhecer a riqueza de tê-la comigo agora. Posso querer melhorar minha saúde e agradecer pelo corpo que me permite agir hoje. Posso desejar crescer na fé e ser grato pela possibilidade de buscar a Deus agora.
Isso deixou de ser apenas uma ideia para mim porque já vivi o outro lado dessas situações.
Desejei me casar e ter filhos. Então os filhos chegaram e, com eles, vieram também noites mal dormidas, cansaço e períodos em que me senti completamente esgotado. Naturalmente, reclamei algumas vezes.
Até perceber algo que mudou minha perspectiva: aquilo que em determinado momento estava me cansando profundamente também fazia parte de algo que um dia eu havia desejado profundamente.
O cansaço continuava sendo real.
Mas a gratidão mudou a maneira como eu o enxergava.
O mesmo pode acontecer com o trabalho. Existem dias difíceis, problemas e pressões reais. Isso não desaparece simplesmente porque somos gratos. Mas podemos reconhecer, ao mesmo tempo, o valor da oportunidade que temos diante de nós.
Na saúde acontece algo semelhante. Podemos reclamar da disciplina necessária para comer melhor ou nos exercitar enquanto tratamos como comum algo extraordinário: a possibilidade de movimentar nosso próprio corpo.
Não penso nisso como um convite à culpa.
Existem dificuldades legítimas. Existem circunstâncias que precisam mudar. Gratidão não significa fingir que tudo está bem.
Gratidão não é conformismo.
Talvez seja a capacidade de não permitir que aquilo que ainda falta nos torne cegos para aquilo que já existe.
Continuo tendo sonhos muito grandes, alguns ainda bastante distantes da realidade que vivo hoje. E não quero diminuí-los apenas para torná-los mais confortáveis. Quero continuar crescendo e construindo, mas sem permitir que a distância entre onde estou e onde quero chegar me faça desprezar o caminho que já percorri.
Há uma frase que começou a fazer cada vez mais sentido para mim:
Eu tenho tudo o que preciso para hoje.
Isso não significa que tenho tudo o que desejo para amanhã.
Significa que posso olhar para aquilo que está nas minhas mãos agora, agradecer e perguntar:
O que posso fazer com isso?
Talvez seja aqui que gratidão, responsabilidade e movimento se encontrem.
Gratidão pelo que tenho.
Responsabilidade pelo que recebi.
Movimento em direção ao que ainda posso construir.
Não preciso esperar me sentir inferior para sair do lugar. Não preciso odiar minha realidade atual para desejar transformá-la. Não preciso rejeitar quem sou para trabalhar por quem ainda posso me tornar.
Posso partir da gratidão.
Assumir responsabilidade.
E me mover.
A vida de outra pessoa pode me inspirar, ensinar e ampliar aquilo que considero possível.
Mas ela não pode ser minha régua.
Porque existe uma vida que somente eu posso viver. Existem relacionamentos pelos quais sou responsável, capacidades que preciso desenvolver e oportunidades que talvez somente eu possa transformar em alguma coisa.
Não sei até onde tudo isso pode me levar.
Mas sei que ficar parado admirando o terreno dos outros não fará o meu produzir frutos.
Talvez uma Vida Robusta comece justamente aí.
Não quando finalmente temos tudo.
Mas quando reconhecemos o que já está em nossas mãos e decidimos cultivá-lo.
Porque potencial é possibilidade.
E aquilo que fazemos com essa possibilidade é responsabilidade nossa.